Dose de coragem

Todos à minha volta – família, amigos, conhecidos e desconhecidos – sempre tomaram como verdade, o julgamento e a permissão social para opinar no corpo dos outros e me bombardeiam com expressões amigáveis e bem-intencionadas como “Tu é bonita de rosto”, “Eu sei que tu consegue emagrecer… É só fazer um esfocinho”, “Como tu emagreceu… Está linda!”. Não que eu seja ingrata, as pessoas realmente dizem tais frases soando como elogio, eu entendo. Mas será que já pararam para pensar que eu não me importo se emagreci? Que eu não estou me esforçando para emagrecer porque eu não tenho a pretensão de ser magra? Ou, repara a tragédia, que eu me acho linda do jeito que sou? Que ser gorda não é ruim? Não ter representatividade, não achar roupas e não se sentir segura em certos assentos é extremamente desagradável. Mas sabe o que não é desagradável? O meu corpo. O erro não é dele. Nunca foi. Se você tem algum problema com o corpo gordo, o problema é seu, não nosso.

Mas nem sempre eu pensei assim, passei muito tempo da minha me achando menos, tentando me esconder atrás de roupas largas, fugia de fotos, praia eu nem queria saber por não gostar da ideia de colocar um biquíni, deixei de ficar com alguns meninos pela insegurança, nunca cortei meu cabelo curto por falarem que me deixaria mais gorda e tantas outras coisas que só hoje consigo perceber que deixei de fazer, pois sempre tive uma “armadura de não me importo” mesmo me importando. É, eu passei anos da minha vida pensando que quando eu emagrecesse faria determinada coisa, que sendo magra todos meus problemas se resolveriam, mas o louco é que hoje eu consegui perceber que nenhum dos meus problemas tinha ligação com meu peso, mas sim o que pensam dele, do que eu pensava dele.

E hoje, com 21 anos, fico pensando se anos atrás a Simoní de hoje, falasse para aquela Simoní o que ela pensa agora, que ela estaria posando seminua para um ensaio fotográfico que celebra o corpo gordo, escrevendo textos sobre gordofóbia, fazendo vídeos na internet tentando mostrar para outras mulheres o quando elas são fodas o que ela falaria? Acho que simplesmente ia rir, mas no fundo, iria sentir muito orgulho, apesar de achar tudo muito estranho.  E agora, eu tento fazer com que essas ideias cheguem o mais cedo nessas meninas para que elas não precisem passar por todo esse processo que eu, e outras mulheres precisamos passar para chegarmos até aqui.

É, como falei antes, sempre tive a “armadura do não me importo”, talvez eu já tivesse dentro de mim essa vontade de ir contra tudo aquilo, talvez eu soubesse que a minha beleza vem de dentro, mas ir em médicos e sempre sair de lá com a obrigação de emagrecer, ir em uma loja e nenhuma calça entrar e tantas outras coisas que só quem é gorda sabe o quanto dói me fazia questionar a minha beleza, fazia me sentir, doente, me fazia ficar doente… Sim, me fazia ficar doente.

A saúde mental  também importa! E foi nessa que comecei a me dar conta de todas as ideias que tenho hoje.

A gente precisa muito, urgentemente, dissociar a ideia de autocuidado da ideia de emagrecimento. Se cuidar pode ser cuidar das demandas do corpo, cuidar da saúde física e mental, se cuidar é se ouvir, se perceber, se acolher. Aprender a respeitar os próprios limites, não se crucificar tanto, se priorizar. Conheço tanta gente obcecada por dieta que adota o discurso do “emagreci por saúde”, mas tá mais interessada nos quilos perdidos, mesmo que pra isso tenha que fazer a dieta da sopa, tomar laxante e se maltratar diariamente. Vamos falar nesse padrão de beleza sufocante e nessa sociedade gordofóbica que destrói o nosso emocional diariamente e faz com que a gente sacrifique o próprio corpo em busca de um ideal absurdo de realização?

Então assim fiz uma limpeza na minha mente… E nas minhas redes sociais, sim, nas minhas redes sociais! Procurei seguir mulheres reais, sem mentiras, sem vida perfeita, que acrescentam conteúdo que me fazem bem, que me representam e com isso quebrar ideais do passado. O nosso padrão nós que fazemos!

Mas entrar em uma calça ainda é um problema, muitas vezes visto o que cabe, não o que realmente gostaria de vestir.
A indústria da moda ainda está longe de ser democrática e consciente. Falta de consciência, pois a metade da população brasileira está “acima do peso ideal” e tamanhos grandes nessas lojas ainda são tratados como produtos de nicho.
Lojas populares nos oferecem tamanhos PP, P, M, G e GG (e que muitas vezes a diferença é mínima de uma para a outra).

Nem todo mundo tem grana para bancar um guarda-roupas “plus size”, que vem ganhando espaço, mas que ainda é muito caro. Como se constrói uma autoestima para enfrentar o dia a dia em uma sociedade que escolhe quem deve se vestir bem, logo, determina quem pode se sentir bonita?
Se sentir confortável com o que está vestindo, ainda é um dos maiores problemas…

Mas vamos à luta!

One thought on “Dose de coragem

  1. @simonisilveira says:

    Estou super feliz de ter tido esse espaço aqui no blog, sou louca pela Ayala e receber o convite para escrever aqui ainda mais sobre minhas inseguranças como mulher gorda foi muito massa…
    Obrigada, gurias!!! 💖💖💖

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